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Entre o Aqui e o Ali..

A vida faz-nos querer estar em muitos sítios. Ansiamos por amanhã mas desejamos ser ainda ontem.. Queremos ficar aqui mas ao mesmo tempo que sonhamos já estar ali... É a incerteza que nos conduz pela estrada, cheia de curvas, até ao futuro!!

Entre o Aqui e o Ali..

A vida faz-nos querer estar em muitos sítios. Ansiamos por amanhã mas desejamos ser ainda ontem.. Queremos ficar aqui mas ao mesmo tempo que sonhamos já estar ali... É a incerteza que nos conduz pela estrada, cheia de curvas, até ao futuro!!

Avó, 21 anos sem ti..

05/12/1993. Lembro-me como se fosse hoje. Tinha 9 anos e um amor imenso por ela. 

Não me apercebi no imediato que tinha sido internada (pelo menos agora não tenho essa noção), mas passados poucos dias de repetidamente a mãe ir para Lisboa, ao Hospital dos Capuchos, fiquei consciente da situação. Na altura a palavra Leucemia tinha tanto significado para mim como uma gripe má, era pequena e não me queriam dizer a gravidade da situação. Num dos dias em que a mãe estava com ela ao telefone, ela quis falar comigo. Disse-me que tinha vindo de um exame, que tinha doído muito, que estava muito fraca. Mas foi o seu pedido que me ficou gravado no cérebro até aos dias de hoje - Reza por mim filha, reza pela avó... Depois de um beijinho e gosto muito de si, o telefone desligou-se. Foi a última vez que ouvi a voz dela. Lembro-me como se fosse hoje.

Todos os dias eu, que ia para a escola de manhã, esperava pelo fim do dia para perguntar à mãe por ela. Todos os dias a mãe ia vê-la. Autocarro, barco e vários Km's a pé até ao Hospital dos Capuchos. Lembro-me de entrar no carro, vê-la chorar e perguntar - Mãe, o que a avó tem é grave? Sim filha, é muito grave. Fiquei de coração apertado. Na escola, contei a algumas amigas minhas que a minha avó estava doente e que a minha mãe tinha dito que era grave. Não sabia explicar exactamente a doença, mas aos 9 anos o termo grave só por si bastava. 

Tinha chegado Dezembro à 5 dias quando, durante a manhã na sala de aulas, alguém bateu à porta. A professora foi abrir e eu vi a minha vizinha de casa. O meu cérebro processou toda a informação muito rápido: os filhos dela não tinham aulas ali, pelo que não haveria outra razão para ela estar ali senão eu; para a razão ser eu, então significava que algo grave tinha acontecido e só podia ter sido com a minha avó. A professora fez sinal que sim, virou-se para mim e disse - V. podes arrumar as tuas coisas e ir com a L.; Sim professora, já sei. Olhei para as minhas amiga e disse - Lembram-se o que vos contei à pouco.... E saí com o coração esmagado.  

Até ao funeral tive duas crises fortes de choro, uma agarrada ao meu pai pouco tempo depois de a minha vizinha me ter levado para casa. Outra, quando entrei no quarto da minha avó. Entrelacei-me nas suas roupas para sentir que ela iria ficar ali comigo, para sempre. Doía muito, ainda para mais para alguém tão pequeno como eu. No funeral nunca me deixaram chegar perto, nem da minha mãe, por quem eu ansiava abraçar. Estive sempre ao longe, sempre com desculpas para todos os momentos. Hoje tenho essa mágoa, mas sei que todos estavam a tentar fazer o que era melhor para mim. 

Passados 21 anos continuo a lembrá-la como a avó que todos gostariam de ter. Dava tudo por nós, para estar connosco. Lembro-me do café das velhas feito nas cafeteiras de alumínio na chaminé de chão; da água sempre quente dentro das panelas de barro; das torradas com toucinho feitas em cima da tenaz junto das brasas do lume enorme; do bolo de mel como nunca mais irei comer um tão bom como aquele; o pão quente acabado de cozer no forno de tijolo (Deus te acrescente e quem te coma não esteja doente..); os presentes no natal; as notas escondidas dentro dos copos; a alegria e os sorrisos; o até amanhã vó - até amanhã netinhas; os abraços e os beijos repenicados. Lembro-me de ela ser feliz connosco e nos fazer felizes.

O que ainda não disse é que, durante muitos anos (e quando digo muitos, são mesmo muitos) achava que eu era culpada por a minha avó ter partido. Tinha 9 anos e eu não tinha rezado por ela, como ela me tinha pedido, no momento em que ela tinha pedido. Durante noites e noites sonhei com ela. Aí rezei. Falei para ela, pedi-lhe que me perdoasse, que gostava de ter voltado atrás e ter pedido a Deus e a Jesus para que ela ficasse boa. Rezei e pedi para que ela ficasse sempre junto Dele, que nunca mais tivesse dores e que fosse feliz. Pedi perdão pela minha falha, mas foi algo que me ficou para sempre marcado no cérebro e no coração.

 

Durante estes últimos 21 anos senti imenso a falta dela, principalmente naqueles momentos mais marcantes, em que gostávamos que todos aqueles que amamos estivessem connosco. Quando terminei a faculdade (agradeci-lhe por ter-me acompanhado naquela conquista); quando casei (disse-lhe que queria que estivesse comigo naquele momento de felicidade); quando fui mãe (pedi-lhe ajuda no parto). Não tenho vergonha em dizer que falo para ela muitas vezes, pois sei que ela me ouve.

Todos os anos o dia 5 de Dezembro é um dia difícil, para mim, para a minha mãe. Hoje, 21 anos depois de a ter ouvido pela última vez, tenho o coração apertado de saudades dela.

Saudades tuas e nossas, querida avó Amélia.

(escrito a 05/12/2014; terminado hoje)

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