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Entre o Aqui e o Ali..

A vida faz-nos querer estar em muitos sítios. Ansiamos por amanhã mas desejamos ser ainda ontem.. Queremos ficar aqui mas ao mesmo tempo que sonhamos já estar ali... É a incerteza que nos conduz pela estrada, cheia de curvas, até ao futuro!!

Entre o Aqui e o Ali..

A vida faz-nos querer estar em muitos sítios. Ansiamos por amanhã mas desejamos ser ainda ontem.. Queremos ficar aqui mas ao mesmo tempo que sonhamos já estar ali... É a incerteza que nos conduz pela estrada, cheia de curvas, até ao futuro!!

Momento MÃE!

Faz hoje 8 meses que foi assim!

 

As últimas semanas de gravidez não tinham mesmo sido fáceis. Depois de tantos dias a correr para o Hospital, deu jeito que durante as duas semanas que antecediam o parto me mandassem ficar em casa, com saída apenas para o CTG rotineiro. Mas quando cheguei lá às 39, disse para a médica que o meu cansaço era já muito forte. Já me era extremamente difícil dormir, não havia posição para estar deitada; sentada; de pé. E ficámos combinadas que na avaliação das 40 semanas, se continuasse igual, faríamos a indução. A varicela tinha-me debilitado muito e eu estava exausta. 

Eram 8h45 entrava no HSB. Identifiquei-me e disse que vinha para a consulta. Passado muito pouco tempo fui chamada - triagem (tensão, pulsação, temperatura) e CTG. Até que apareceu a minha médica e me perguntou como é que estava e se pretendia que avançássemos para a indução. Respondi logo que sim. Já me tinha mentalizado que não voltaria para casa sem o meu pequeno raio de sol nas mãos. Fizemos o internamento e eram 10h estavam a dar-me o primeiro 1/4 de comprimido. Tinha 1cm de dilatação. O caminho ainda era longo.

Até por volta das 14h, as dores que ia tendo eram completamente suportáveis, e foi por essa altura que me deram o outro 1/4 de comprimido. Foi instantâneo o aumento das contracções e da intensidade com que sentia as dores. O F. chegou para a visita e o CTG já marcava com regularidade o ritmo das contracções e eu já respirava fundo. Pouco tempo depois terminou a visita. Despedimo-nos com um até já.

Estava tranquila, mas aquela ansiedade miudinha começava a aparecer lá no fundo do meu ser no preciso momento em que me rebentaram as águas. Senti como se tivessem despejado um copo de água quente debaixo de mim. Chamei a enfermeira que me perguntou se precisava de ajuda. Disse-lhe: "eu acho que as águas rebentaram"; " E acha muito bem, vamos já trocá-la".

Daí para a frente foi sempre a subir - na intensidade das contracções; na ansiedade; no nervosismo. A médica veio-me observar. Dilatação: 2 cm!! - "Sabe V., os partos provocados por norma são mais difíceis no que toca a contracções, mas você está a ir bem". Mas as dores já eram muito fortes e, felizmente, ela tinha um recurso "vou levá-la para dentro e pedir ao anestesista para lhe dar uma sequencial (cara de espanto da minha parte). Esta anestesia é a única que pode ser dada antes de ter atingido o trabalho de parto activo e que não o comprometa. Assim que atingir os 3cm/4cm de dilatação, já podemos dar a epidural." Perfeito, era mesmo o que estava a precisar. Depois de rebentarem as águas, a intensidade e a regularidade das contracções faziam-se sentir cada vez mais. Chamei o F. Estava na hora de o ter ao pé de mim, sempre até o nosso pequeno nascer. 

O caminho entre o internamento e o bloco de partos (feito a andar) pareceu-me uma eternidade (quando foram apenas uns metros). Após estar instalada, levei a anestesia e só tinha de aguardar 10minutos para que a mesma fizesse efeito. E pedacinho por pedacinho fui deixando de sentir as dores. Faltava só uma parte da barriga - a frontal. Mais um bocadinho já vai adormecer. 10minutos e nada, as dores localizavam-se todas ali. 20 minutos, todo o resto do corpo descansava, excepto aquela zona na barriga que sentia todas as dores. Não consegui descansar. Pensei - com a epidural com toda a certeza que esta dor vai desaparecer.

Após 1h e pouco a médica veio-me observar: 4 cm de dilatação. Disse-lhe das dores, ela confirmou: tem uma "janela" onde a anestesia não chegou. Vamos tentar mudar a posição agora na epidural para ver se resulta. Mas não resultou. Com a ajuda da enfermeira parteira estive na bola de Pilatos; na posição à chinês; novamente na bola. Segundo ela aquela janela poderia ser devido ao bebé estar ali mal posicionado. De cima para baixo, de baixo para cima, e já estava nos 6 cm de dilatação e a sentir praticamente as dores todas - "esta bacia é espectacular, por este andar vai parir primeiro que a outra mãe de 3"!! 

Por volta das 22h levei o último reforço de epidural, mas essa então não teve qualquer efeito apaziguador nas minhas dores. As contracções eram seguidas. Fortes. Intensas. Estava nos 8,5cm. Voltei a circular na entre a bola de Pilatos e a marquesa. Passou 1h30m e a dilatação não avançava. O meu amor maior não estava encaixado. Algo se passava. O cordão enrolado no pescoço, um pé preso em algum lado, eram as hipóteses que se colocavam para a estagnação do trabalho de parto. 23h55 e decidimos que o melhor seria ir para a cesariana. 

Lembro-me que entre a sala de partos e a bloco para cesarianas o espaço era curto, mas pareceu enorme. As contracções no seu máximo. A dor. Após a substituição do cateter e assim que começo a levar um novo tipo de anestesia, comecei a sentir o calor na ponta dos pés e a subir-me pelas pernas. Quando deixei de as sentir, percebi o que costumam dizer com - chegar ao céu - quando se leva a epidural.

" Horas? 00h41:13. Parabéns mamã". E foi nesse preciso momento que olhei para cima daquele pano verde e o vi. O meu mundo parou naquele instante e uma lágrima escorreu-me pelo rosto. O imenso cabelo. Os olhos rasgados e o beicinho de zangado por o terem tirado do quentinho da mamã. O meu mundo parou e soube que a partir daquele instante nada na minha vida, e na do pai, seria igual. Levaram-no. Enrolaram-no num pano e voltaram a trazê-lo para o poder beijar. Para o poder cheirar. Chorei e ri ao mesmo tempo. Ele chorava de zangado.

Enquanto fui cozida, fez o contacto corpo a corpo com o pai, que aguardava pacientemente na sala dos pais. Sempre muito calmo o meu F. Aconchegou-o e deu-lhe os primeiros mimos. Depois chegou a minha vez de o aconchegar com a maminha (e que fome que ele tinha!).

Não foi um parto fácil nem uma estadia fácil no hospital. As cesarianas têm uma recuperação difícil (pelo menos a minha foi bastante difícil); a dificuldade de movimentos entre a cama e o chão, a ausência de ajuda durante as noites no hospital (só nos privados deixam os maridos ficar de noite). São dias e noites difíceis. Mas olhar para aquele ser indefeso, que amamos tanto, que desejámos tanto, que é parte de nós, faz-nos - por momentos - esquecer todo o sofrimento.

 

Hoje, passados 8 meses, é o meu pequeno raio de sol que ilumina os meus dias, que me aquece o coração com os seus sorrisos e me derrete lágrimas de emoção e de amor sempre que se agarra a mim a pedir miminhos. Ser mãe faz-nos viver sempre com o coração fora do peito, desejar que eles cresçam ao mesmo tempo que tememos que isso aconteça e que os percamos do nosso colo para sempre. Queremos sempre mais - mais um abraço, mais um beijinho, mais um sorriso. Mas também queremos que o tempo passe mais devagar, que pudéssemos estar mais e mais tempo com eles. 

Ao longo destes 8 meses, uma certeza eu tenho tido: cada vez amo mais este pequeno ser que de mim saiu e que a minha (nossa) vida não seria nada sem ele.